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segunda-feira, 27 de março de 2017

DIA MUNDIAL DO TEATRO (II)

A  mensagem portuguesa para o Dia Mundial do Teatro, escrita pelo encenador João Brites: 

"Como quem chora e ri com a própria sombra"

"Neste Dia Mundial do Teatro de 2017, é para ti que já não tens sombra, que nós escrevemos. Gostaria que soubesses que por toda a parte se faz Teatro. A consciência de que temos uma sombra que nos pertence, constrói um outro eu com quem podemos dialogar. Os filósofos gregos apropriaram-se da ideia de sombra e atribuíram-lhe significados que identificamos como uma aproximação ao nascimento do Teatro, mas é muito provável que os nossos antepassados tenham exercitado a capacidade de jogarem com as sombras projetadas nas cavernas quando dominaram a capacidade de fazer fogo. As pequenas comunidades elaboraram as sonoridades que progressivamente se organizaram nos fonemas que permitiram contar as primeiras histórias. Muito antes da capacidade de escrever, de registar as experiências vividas e as outras, inventadas, os contos terão passado de geração em geração sem deixarem vestígios materiais.
A arte de contar histórias, na mistura do discurso direto com o indireto, introduziu a habilidade de construir outras vozes, outras pessoas, a que poderiam corresponder outras sombras. Há mais de cinquenta mil anos ter-se-á colocado o problema da representação das coisas, e consequentemente o da memória e o da repetição. Ainda hoje é este mesmo problema que todos os dias tentamos resolver quando nos confrontamos com os públicos, e é ao procurarmos desenvolver essas competências estruturantes que nos apercebemos da sua importância na coesão das entidades individuais e coletivas.
Associado à movimentação dos corpos que em torno das fogueiras esboçavam os primeiros passos, elaboraram-se as sonoridades que iriam dar origem à noção de música. As sombras deformadas nas cavidades das grutas terão desenhado as primeiras cenografias. Os gestos e o virtuosismo na movimentação das mãos contribuíam para uma apropriação coletiva dos conhecimentos e eram extraordinários auxiliares na construção dos pensamentos, na formulação das ideias que se podiam transmitir. Essas sombras terão então suscitado sustos, risos, lágrimas, dores, emoções, palavras. Palavras que construíam conceitos e contradições, que faziam perguntas e procuravam dar respostas, que contracenavam com outras pessoas e com as próprias sombras. Assim, e em tempo real, com a presença de atores ao vivo, foram criadas as narrativas e as representações de tensões e de conflitos que estão na génese do Teatro.
Apesar de me parecer um mau prenúncio que este Dia Mundial de Teatro aconteça a uma segunda-feira, precisamente no dia em que os teatros estão, em princípio fechados, é para ti companheiro de Teatro, que nós escrevemos. Na maior parte dos casos os deuses sempre recearam e perseguiram o Teatro e nós sabemos que sempre estivemos sujeitos a pequenas e a grandes intempéries. Mas também sabemos que continuamos a ser compulsivamente irrequietos e desestabilizadores. Temos orgulho em sermos os herdeiros dessa tradição milenar que terá começado naquelas pequenas comunidades, apenas com dezenas de pessoas no paleolítico, e que cresceu com os atores e os filósofos gregos nos grandes teatros que os mecenas e os poderes políticos construíram para acolher dezenas de milhares de espectadores. Ao longo de milhares de anos o Teatro afirmou-se, e nós somos os discípulos desta prática artística. A arte teatral opera com os mais polifacetados recursos artísticos e é por isso a mais dotada para continuar a contar histórias e a representar personagens no presente.
Hoje, depois das mais contundentes experiências do Teatro praticado pelos povos mais distantes no tempo e no espaço, das cerimónias medievais, dos projetos realistas, expressionistas, dos surrealistas e da abordagem mais cruel, simbólica ou conceptual, estamos aqui bem vivos, de carne e osso, prontos para sermos mais um elo na cadeia deste contínuo desígnio. Não a pensar em nós próprios, no sucesso, na vaidade ou na fama e nos prémios. Estamos aqui para contribuir para a mudança do mundo na incessante procura de uma felicidade mais constante e partilhada. 
Durante dezenas de anos a continuidade de projetos como o da Cornucópia cativou um lugar na memória de cada um. Aquela sala de teatro que, como uma caverna, persistentemente escavaram, - e onde partilhámos tantas sombras que nos ajudaram a crescer como pessoas e como artistas, - passou agora para as mãos de quem sinta a necessidade de a usar preservando o seu espírito. Mas se é indispensável não perder a memória, também é indispensável manter viva a curiosidade em acompanhar os projetos que, com maior ou menor longevidade, se afirmam e muito especialmente os que nascem, titubeantes como nascem todos os seres vivos, e ousam lançar as bases de uma continuidade que não quer esmorecer perante as primeiras dificuldades. 
Como podes calcular, é sobretudo para ti que vens ao Teatro, que continuamos esta labuta de fazer espetáculos que façam parte da experiência concreta da vida das pessoas que a eles assistam. Acreditamos que o Teatro não é assim tão efémero como poderíamos pensar. Partilhar um espetáculo marcante é o mesmo que participar num encontro memorável onde as conversas se misturam com os cheiros daquele lugar específico, em torno de uma apetitosa refeição acompanhada de bom vinho.
A memória não é uma coisa do passado quando algo de inexplicável perdura e se prolonga no tempo. Faz parte do presente ao ficar atualizada a cada instante com outros tantos novos estímulos sem deixar de manter uma relação com os referentes icónicos. É por isso que pode continuar viva a voz do ator, uma ou outra palavra escrita, uma imagem que, como uma fotografia ficou impressa na mente. A memória estabelece uma equação sistémica com as efemeridades que se gravam na pele a cada instante. Nem sempre tem lógica e nem compreendemos bem o que ficou do outro em nós próprios, o que ficou da sombra do outro na nossa própria sombra.
Também é para mim que faço Teatro, que agora escrevo, porque ando quase sempre insatisfeito com o que faço e quase sempre revoltado com o mundo que me rodeia. Diria que temos de continuar a sonhar com um país que pensa e escreve na sua língua; a acreditar que existem políticos que foram eleitos para contrariar a submissão da atividade cultural e artística ao negócio e às leis do mercado, e que acima de tudo, dignificam a vasta comunidade a que pertencem, ao não sujeitar as leis e as normas ao senso comum das maiorias e da sua natural apetência pelo que é mais banal e vulgar. Não conseguimos deixar de pensar que, se queremos combater as ditaduras, os fascismos e outros fundamentalismos, é também ao Teatro que precisamos de dar apoio, porque é a única maneira de a maior parte das pessoas a ele terem acesso, ampliando o seu espírito crítico, emancipando-se na prática de uma cidadania mais ativa. Se cada criança do meu país tivesse a possibilidade de assistir pelo menos a um espetáculo de teatro por ano, se se conseguisse rentabilizar o investimento que o estado fez nos últimos anos ao promover, escolas, professores, programas, construção ou recuperação de teatros, de redes de articulação e de divulgação de espetáculos, poderíamos verificar que não somos suficientes e que de nada vale sermos menos a pensar que assim cada um teria mais recursos. A qualidade precisa das quantidades para se manifestar.
Finalmente para ti que nunca vens ao Teatro é preciso que saibas que continuaremos sempre por aí à tua espera. Se um dia tiveres esse desejo, tem a certeza de que te receberemos de braços abertos. Nessa altura vamos chamar a tua atenção para o facto de não existir propriamente um Teatro, mas muitas maneiras diferentes de fazer Teatro e que, a pouco e pouco, precisarás de te confrontar com essa multiplicidade de estilos para seres capaz de fazer as tuas escolhas.
Acredita que mesmo nos períodos mais horríveis, sujeitos a bombardeamentos ou a perseguições, poder-nos-ás encontrar, como sempre tem acontecido, nas catacumbas das cidades, nas caves dos prédios destruídos ou refugiados nas montanhas mais inóspitas, escondidos nas suas cavernas. Mesmo isolados ou prisioneiros continuaremos a observar a nossa sombra e com ela aprender a ler e a compreender o que ela tem para nos ensinar. Enquanto não for possível roubarem-nos a sombra, não deixaremos de brincar com os efeitos que ela produz nas paredes das grutas, para melhor nos podermos rir ou chorar dela e com ela."
João Brites

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O DOM - Plural/TVI



A TVI voltou a transmitir esta mini-série que tanto gostei de fazer! Aqui fica a medium, para lembrar e os links para quem quiser ver.



Episódio 1





O Sábio - RTP/SP Televisão


É tempo da Felícia Mendes. O Sábio. À hora de almoço e ao serão, na RTP1.
Estreia - 2 Janeiro 2017


A Herdade das Estevas

A Equipa - quase a começar
A Equipa - intervalo para almoço

A Equipa - quase a começar


A Equipa - preparativos


Mais um amigo



A RTP, com o "Agora Nós" foi à Herdade

Com o capataz, o menino, a menina e o sobrinho

Trabalhos no armazém. Problemas
Confissões





segunda-feira, 11 de abril de 2016

"Carreira"

Este ano são 37. Completo hoje 37 anos de "carreira". Se fossem 28, "casava os anos"...  a "carreira".


Pois é. Mas a verdade é que nada se alterou do ano passado para este. Continuamos sem estatuto profissional, os nossos direitos continuam reduzidos à expressão mais simples e a unidade no sector também. Mais sócios o CENA sindicato tivesse, mais força teria a negociar estas coisas com quem de direito. Mas a malta acha que ser sócio do sindicato é careta... Nunca experimentaram outra coisa. Mas os da minha geração e os das gerações anteriores já experimentaram. Já tivemos carteira profissional, contratos de trabalho, descontos equivalentes para a segurança social. Eu até tive subsídio de maternidade e baixa por doença e subsídio de férias e de natal, vejam lá! Pois... Foi numa altura em que a malta conquistou umas coisas. Depois... depois o outro lembrou-se dos recibos verdes, mandou as carteiras profissionais às urtigas e a malta calou-se. E foi colectar-se às finanças.  E depois não querem que eu escreva carreira com aspas. 
Ainda estamos a tempo. 
Inscrevam-se no sindicato, pá! Actores, Músicos, Bailarinos, Técnicos, TODOS os trabalhadores do espectáculo e do audiovisual! Acordai, gente!


Quero mais 37 anos disto de ser o que sou, mas também quero condições, faço-me entender?
E pronto. Por hoje é só. 
Até já.

Ah, esperem! Ainda me falta dar os abraços do costume, aos "suspeitos" do costume. 
OBRIGADA! ❤️



domingo, 10 de abril de 2016

"Portugal Não Está À Venda" - Cinema Português

Alguns registos das filmagens.
Filme do querido e talentoso André Badalo. Cada momento com alegria e entrega e prazer. Com os queridos colegas e excelentes actores Cucha Carvalheiro, Orlando Costa, Maria José Paschoal, Pedro Carvalho e Hugo Costa Ramos. Privilégio.













sábado, 11 de julho de 2015



Bem-vindos a Beirais - cenas... 























sábado, 11 de abril de 2015

E no dia de aniversario da minha estreia profissional ( já lá vão 36 anos), fica aqui, mais uma vez, a minha homenagem aos meus mestres! Grata, sempre! E grata, também, ao público que me acarinha há tantos anos. Viva! 



quarta-feira, 11 de março de 2015

quinta-feira, 27 de março de 2014

ORAÇÃO NO DIA MUNDIAL DO TEATRO: PORTUGAL E EUROPA, 2014


ORAÇÃO NO DIA MUNDIAL DO TEATRO: 
PORTUGAL E EUROPA, 2014


Na minha caixa de e-mail apareceu uma mensagem que dizia: 

"Espalha este "Credo" e que os teus Amigos o voltem a espalhar e todos que o recebam o multilpliquem para circular no dia 27 de Março e sugiro que a diamos em alta voz nesse dia, como num abraço Inconsciente,mas vivo, do Universo.
Saudações de um Filósofo a um Artista, no abraço de Cidadania Comunitária. 
Não tenho medo em me mostrar, mas prefiro ser Voz Colectiva, como o Soldado, Desconhecido, a todos e cada um representando, assinando hoje como 
Téspis"

Aqui fica, então, Téspis.


"Não creio no Teatro dos Todos Poderosos, detentores dos Mares e das Terras, das fábricas e dos bancos, dos centros comerciais e dos tráficos de armas, drogas e Seres Humanos. E menos ainda no autodenominado Neoliberalismo, única Globalização através de Produtos Tóxicos Financeiros, que foi concebido pelo poder dos Espírito Santo, Ulrich, Amorim, Jardim Gonçalves e demais cáfila com os seus pares internacionais em escala maior, nascidos do bojo do Capitalismo Selvagem, que faz padecer os Humilhados e Ofendidos do Mundo, lavado pelas mãos da dita Terceira Vaga da Social-Democracia, crucificando-os em nome do deus Mercado, morto e sepultado um dia nas nossas Utopias, e desceu aos quintos dos infernos de Auschwitz, Guantánamo e outros, e daí ressuscitou com indumentária democrática aposta a um segundo Terceiro Reich, subiu aos céus em caças de guerra, satélites e drones de controlo, está sentado à extrema-direita de todos os ditadores e pais da tirania, donde há-de vir a julgar os vivos e mortos que se lhe oponham ou atrevam a sequer divergir, para acabar com qualquer réstia de Humanismo e um terço ou mais da Humanidade.

Creio no Teatro que exalta o Homem na sua integralidade dos Direitos Materiais, da Vivência Espiritual, nos palcos onde a Verdade, a Beleza e o Amor falam mais alto do que o medo; na Comunhão de todas as Pessoas contra o novo Holocausto, no reconhecimento das nossas Responsabilidades e remissão dos nossos compromissos com o Monstro, na remissão das nossas aceitações covardes, na Ressurreição de todos os Excluídos do Mundo, na Eterna Ética da Dignidade.

Amén."

Mensagem Dia Mundial do Teatro 2014, de Brett Bailey



"Onde quer que exista a sociedade humana, o seu Espírito irrepressível de Representação manifesta-se.

Nas pequenas aldeias e em palcos ultra modernos nas grandes metrópoles. Nos espaços de recreio nas escolas, nos campos e em templos; em bairros de lata, em praças nas grandes cidades e nos centros comunitários as pessoas congregam-se para comungar os mundos efémeros do teatro que criamos para exprimir a nossa complexidade humana, a nossa diversidade, a nossa vulnerabilidade, em “carne viva”, em respiração e em voz.

Juntamo-nos para chorar e para relembrar; para rir e para contemplar; para aprender, afirmar e imaginar. Para nos maravilharmos com a destreza técnica e para encarnar os deuses. Para suster o nosso sopro vital perante a nossa capacidade para a beleza, a compaixão, a monstruosidade. Vimos para obter a energia e o poder. Para celebrar a riqueza das nossas culturas tão diferentes, e para dissolver as fronteiras que nos dividem.

Onde quer que exista a sociedade humana, o seu Espírito irrepressível de Representação manifesta-se. Nascido da comunidade, transporta as máscaras e os costumes das nossas diferentes tradições. Explora as nossas linguagens, os ritmos e os gestos e abre um espaço entre nós.

E nós, os artistas que trabalhamos com este espírito ancestral, sentimo-nos compelidos para o canalizar através dos nossos corações, das nossas ideias e dos nossos corpos para poder revelar as nossas realidades em toda a sua mundanidade e mistério.

Mas, nesta era em que tantos milhões lutam desesperadamente por sobreviver, sofrem sob regimes opressores e capitalismos predatórios, e fogem de conflitos e de provações; em que a nossa privacidade é invadida por serviços secretos e que as nossas palavras são censuradas por governos intrusivos e sem escrúpulos; em que florestas inteiras são aniquiladas, espécies exterminadas e oceanos são envenenados: o que é que é necessário revelar?

Neste mundo de poder desigual em que várias ordens hegemónicas tentam convencer-nos que uma nação, uma raça, um género, uma preferência sexual, uma religião, uma ideologia, uma estrutura cultural é superior a todas as outras, será que podemos afirmar categoricamente que as artes devem estar separadas da agenda social?

Estaremos nós, os artistas das arenas e dos palcos, conformados com as exigências do mercado, ou deveremos usar o poder que temos para abrir um espaço de reflexão no coração e na mente das sociedades, para unir as pessoas em torno de nós, para inspirá-las, encantá-las e informa-las, criando um mundo de esperança e de solidariedade sincera?"

(tradução de Fernando Rodrigues)

sábado, 22 de março de 2014



Dos "diários de bordo" de Susana Vitorino em Susana Vitorino Unplugged:
"Palavras que se repetem. E repetem. E repetem. E... às vezes nada soa como eu acho que devia soar. A minha directora, Luísa Ortigoso, hoje parecia o Mourinho!"

E digo eu: Exageros de uma actriz enquanto "sofre" a criação...



Em Abril, no Teatro Rápido. Check Mater.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um poema de Herberto Hélder sobre o Actor

Poema acto III

"O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma, e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.
O actor em estado geral de graça."

Herberto Hélder

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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Frases sobre o Teatro

Só por curiosidade, frases de alguns ilustres sobre o Teatro:

"O teatro é a poesia que sai do livro e se faz humana." (Federico García Lorca)
"No teatro descobri que existem duas realidades, mas a do palco é muito mais real." (Arthur Miller)
"O teatro é um meio muito eficaz de educar o público; mas quem faz teatro educativo encontra-se sempre sem público para poder educar." (Enrique Jardiel Poncela)
"Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho." (Arthur Schopenhauer)
"O público dos teatros divide-se em duas categorias: os que pagam e nunca vão ao teatro, e os que vão sempre ao teatro e nunca pagam." (Jules Renard)
"Teatro só faz sentido quando é uma tribuna livre onde se podem discutir até as últimas consequências os problemas do homem." (Plínio Marcos)
"O teatro não se repete, apesar de ser sempre o mesmo. Cada representação é como estar diante de um novo personagem." (Beatriz Segall)
"O nosso ofício, falo de teatro, não nos deixa provas. A posteridade não nos conhecerá. Quando um actor pára o acto teatral, nada fica. A não ser a memória de quem o viu. E mesmo essa memória tem vida curta." (Fernanda Montenegro)
"Existem empresários que enriquecem com o teatro - dizem. Não fizeram teatro, fizeram negócio. Quem faz teatro, seja empresa, seja governo, estará sempre perdendo dinheiro. Mas asseguro-lhe que quem faz teatro não se importa muito com isso." (Cacilda Becker)
"O teatro, que nada pode para corrigir os costumes, muito pode para mudá-los." (Jean-Jacques Rousseau)
"O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia." (Jean Barrault)
"O teatro como formador de opinião pode ser uma saída para tirar o governo da falência moral e mostrar ao público que o trabalho sério é a solução." (Antônio Ermírio de Moraes)
"Acho que quando faço teatro fico mais inteligente e fico melhor actor até para fazer as outras coisas!" (Wagner Moura)
"O sonho do teatro não é eternizar-se, mas falar com clareza, emoção, beleza, poesia e compreensão para o cidadão do seu tempo." (Amir Haddad)
"Talvez no teatro da vida se divirtam todos, mas não o actor." (George Bernard Shaw)
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O teatro grego e o actual teatro: uma reflexão crítica

Um texto da brasileira Valéria Maria de Oliveira* sobre o teatro que, apesar de estar reflectido sobre a realidade brasileira, bem podia sê-lo sobre a realidade portuguesa. Ora leiam (está em português do Brasil) e digam o que pensam...


Dos rituais primitivos e religiosos dos quais estava envolta a antiga Grécia, surgiu a aventura efêmera que atravessaria os séculos: o Teatro. Organizado e formalizado pelos gregos para o espaço cênico, o teatro é até hoje, essencialmente, a arte que trata sobre o homem e a mulher e suas relações com o mundo e todos os acontecimentos que os cercam.

Os gregos nos são, até os dias de hoje, uma constante referência, tanto do ponto de vista artístico quanto do ponto de vista filosófico e, sem dúvida alguma, do sistema social, que hoje nos é quase impossível de compreender em função de tamanha desestrutura que passamos, principalmente no que diz respeito à ordem do pensamento vigente.

Foram os gregos que criaram, dentro do universo artístico, a Tragédia Grega, que fala sempre sobre realidades e mitos. As histórias das tragédias sempre eram conhecidas de todos, falava de heróis legendários, em luta com o austero e implacável destino; e dos deuses, sempre participantes no sentido de recompensar a coragem e punir a rebeldia. E assim, a partir da forma comportamental do herói diante das imposições do destino, organizava-se a ação dramática.

O teatro grego teve como característica principal ser um teatro cívico, sobretudo a tragédia, um teatro como define Barthes que era “sociedade restrita e mundial”.

Falar do teatro grego é sempre motivo e um objeto para grandes polêmicas, teses e dissertações. Mas aqui vamos procurar traçar um campo reflexivo-crítico sobre o nosso pequeno teatro burguês, que reflete o que somos em dias de tanta depuração, tanta ausência de paradigmas norteadores, buscando perceber esse nosso tão famigerado hoje e nada mais.

Muito ao contrário dos gregos, uma boa parcela do nosso teatro atual, não revela mais as questões de ordem social. O teatro hoje esta envolto por uma camada de anestésicos que visam falar do homem e seus conflitos interiores. Claro que a sociedade de hoje, está  muito longe de ter princípios semelhantes aos gregos. Porém, as obras das tragédias gregas ultrapassaram os séculos justamente por não se aterem a falar dos psicologismos das personagens, evitando assim, que o teatro se afastasse do censo de coletivo original.

Os espetáculos na atualidade (e há muito tempo) por uma questão de ordem econômica, e de esvaziamento cultural, estão cada vez mais reduzidos no que diz respeito ao elenco. Assim, ao longo da história, o que era para os gregos o personagem principal: o coro, composto, por muitos, hoje, muitas vezes, é apenas um ator em o palco nu, e uma platéia reduzida aos pequenos espaços de pequenas salas.

Da mesma forma como o coro foi se reduzindo, os espetáculos também o foram, e todo o contexto que o cerca. Assim, das grandes festas Dionisíacas em que estava envolto o antigo teatro Grego, nosso teatro agora está envolto de si mesmo e das suas coisas, que estão somente a um palmo de si.

Claro que o teatro grego, por mais grandiosos que tenha sido na sua forma espetacular e na sua concepção social , estava num contexto de uma democracia que não dava conta de uma parcela da população também, como os metecos, os escravos. E mesmo assim, enquanto uns podiam assistir aos espetáculos, outros trabalhavam para eles. Mas a participação, tanto de um lado quanto de outro, era sempre consciente de uma atitude política.

Parece-me que, enquanto os gregos estavam fazendo arte, também faziam atos de política e de educação, não no sentido banal que estas palavras têm ganho a cada dia na contemporaneidade, muito menos no sentido político partidário. Era uma atitude nata, de quem ocupava o seu lugar civil, de quem ocupava não apenas um lugar na assembléia, mas sim, de quem tinha a responsabilidade civil nos seus atos do cotidiano coletivo.

Hoje, numa sociedade onde o artista passa pela dificuldade de fazer o espetáculo, pois a própria sociedade já se transformou em algo espetacular, fica cada vez mais difícil fazer teatro de uma forma que este tenha o peso de uma responsabilidade com a transformação social, uma vez que o próprio teatrista se vê na dificuldade de uma compreensão mais ampla da sociedade na qual está inserido.

Os espetáculos gregos sempre foram de cunho popular, não apenas porque eram dados ao ar livre como, especialmente, congregavam toda a população, sem delimitação de classes. Os artistas de então, contratados do Estado,  cumpriam uma função educativa, como intérpretes de um estado de espírito coletivo: a democracia.

Em dias tão desajustados, fica cada vez mais distante essa idéia desse teatro responsável como um elemento educativo estético. Cada vez mais se torna difícil manter grupos de grande elenco e estáveis e já arrisco dizer que na nossa sociedade o teatro não é um elemento cuja importância seja real.

Há de forma mais geral duas fortes tendências: a do teatro que opta por um lugar de investigação, que fica mais à margem, e outro que se define pela lógica capitalista, que é o que chamamos de teatro comercial. O Estado restringe-se à administração de verbas e à criação de leis de apoio fiscal para que as empresas privadas viabilizem verbas às companhias teatrais. Conseqüentemente, este fator define o perfil dos espetáculos e atividades culturais. Como os grupos que recebem os apoios fiscais não conseguem sobreviver exclusivamente destes, acabam tendo como opção os trabalhos pedagógicos e ainda os festivais.

Os festivais, em tempos atuais, acabam ganhando um cunho elitista, uma vez que também precisam agradar seus patrocinadores. Muitos fazem circular as produções comerciais e outros, que se colocam como mais alternativos, acabam fazendo circular os mesmos trabalhos e grupos, pois se tornam pertencentes de um núcleo fechado de amigos teatrais.

O grande comungar do teatro com o povo é um pouco raro. Claro que temos no Brasil festivais que, durante suas atividades, dinamizam apresentações em toda a cidade, fazendo circular apresentações em bairros, escolas, fábricas, mas mesmo assim, isso é mais um compromisso de marketing empresarial que um compromisso socio-educativo.Ainda, em grande maioria, as apresentações de festivais estão presas às salas de teatro, que em caso de grandes prédios de teatro, a própria estrutura já inibe naturalmente a entrada de uma classe menos privilegiada. Assim, somente os dados cidadãos de algum poder aquisitivo desfrutam de tal evento. E essa mentalidade revela a forma como pensamos a arte hoje e como os patrocinadores definem, mesmo que sem “imposição”, as estruturas.

Cada vez mais se vê o teatro preocupado em fazer teatro para si mesmo ou para a grande mídia, e os artistas esperando por sua ascensão nos grandes meios de divulgação, esquecido da sua possibilidade de formação, de intervenção social e cultural. Nem poderia ser diferente se vivemos a era da individualidade, onde o texto: “um por todos e todos por um” é apenas uma frase solta que todos julgam interessante, uma vez que foi Alexandre Dumas quem escreveu, mas que todos a deixam fora do plano de atitudes do seu contexto. Claro que não estou pedindo aqui que todos saiam às ruas fazendo teatro e que excomunguem o teatro de sala e o teatro romântico. Mas proponho que se façam a pergunta do por quê cada vez mais estamos indo para pequenas salas e com um número cada vez mais reduzido de pessoas para assistir o feito teatral ?

Seria muito pedir também que perguntássemos qual pode ser a aproximação dos festivais, o dos espetáculos com a população ?

Penso que não. Não seria muito. É possível fazer essa reflexão. É certo que nunca poderemos resgatar a mentalidade grega, até mesmo por que isso seria impossível e tolo, mas se ficaram as Tragédias Gregas é sinal de que podemos nos deixar influenciar por essa cultura, ressignificando-a para o nosso tempo.

Uma vez que o teatro não tem esse caráter civil que os gregos tinham, podemos entrar aqui num problema de ordem de formação. Não seria nenhuma novidade dizer aqui que o nosso sistema educacional no Brasil (poderia dizer de outros lugares também, mas nesse momento me interessa falar da minha própria casa, da minha própria nação) é um sistema que há tempos vive em decadência. Assim, se falarmos do trabalho de formação em teatro, basta fazermos um retrospecto de como se iniciou o ensino das artes no Brasil que logo perceberemos que o teatro está ainda longe de ser um componente dentro da educação.

Com a chegada da “Missão Francesa” no governo de Don João VI instalou-se a primeira escola de Artes do Brasil, que tratou de preocupar-se apenas com o ensino das artes plásticas, além de ter trazido e imposto todo o molde francês para esta. De lá pra cá, é clara a percepção de que todas as estruturas de ensino de artes se deram somente através das artes plásticas, hoje artes visuais. A própria instauração das faculdades de artes, ou melhor a antiga Ed.Artística, tinham seus conteúdos quase que integralmente voltados para artes plásticas, e uma ou outra cadeira voltada à música e ao teatro. Hoje, já temos disponível no país algumas faculdades de teatro que ainda estão nos seus ajustes em função de sua jovialidade.

Então, desde que começamos, realmente não houve nenhuma ocupação verdadeira do teatro dentro das instituições de ensino, talvez porque este seja considerado subversivo, e essa consideração seja algo para arrepiar o conceito de ordem e de democracia em que vivemos em nosso país. Não que o teatro dado na academia vá dar conta de resolver os problemas, mas a criação destas e a formação de professores que possam atuar dentro do ensino fundamental e ensino médio talvez pudesse caminhar para auxiliar na formação de cidadãos melhores consumidores e fruidores da produção artística de sua época, bem como amenizar essa carência dentro das instituições de ensino.

O teatrista de hoje precisa ficar passível de uma transformação muito grande, e zelar ao máximo por sua formação integral como homens e mulheres pertencentes a esse mundo, tanto aquele que se encontra na periferia, quanto nos grandes centros. Não falo aqui em tentar fazer um teatro grego, que era o teatro e a cidade, mas tentar enfrentar sua formação como a única coisa capaz de modificar seu ato, e a construção do seu objeto espetacular, quando o indivíduo se transforma, todo seu contexto se modifica.

Cuidar da nossa formação é não deixar permissão para colonização, não permitir nossa aculturação. Zelar por formação é criar espaços reais de liberdade, é construir identidade e, acima de tudo, é estar preparado para viver esses novos tempos e, quem sabe, criar tempos melhores ou pelo menos mais esperançosos.

Em dias nublados, como os de hoje, longe da antiga Grécia, mais que grandes produções, mais que salas fechadas, mais que nosso umbigo, mais que o fortalecimento de personalidades, necessitamos de apuração de caráter, mais que o simulacro precisamos de ações concretas e verdadeiras de transformação.

Quando o indivíduo se deixa tocar, quando deseja ser tocado, automaticamente se transforma, e quando se transforma o entendimento sobre as coisas, transformam-se também a ética, a estética, a linguagem e estas por sua vez modificam todo um olhar da sociedade, juntamente com outras estruturas. Gostaria de dizer que é possível transformar o olhar do umbigo para o olhar civil. Essa transformação leva o indivíduo a redescobrir recantos adormecidos, a “emocionar-se”, que, na origem da palavra, significa mover-se.



REFERÊNCIAS

BARTHES, R. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70.

CUNHA, J. C da. E o teatro do intérprete. Entrevista. Folhetim, n.14, jul./set. 2002.

FERAL, J. Os gregos na Cartoucherie: a pesquisa das formas. Folhetim, n.14, jul./set. 2002.

*VALÉRIA MARIA DE OLIVEIRA - Atriz e Professora – Universidade do Vale do Itajaí/UNIVALI. Graduada em Artes Cênicas – Especialista em Ensino da Arte: Fundamentos Estéticos e Metodológicos – Mestranda em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina/UDESC




sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Palavras Sábias

Já muitas vezes me foi pedido um conselho por jovens actores. A maioria das vezes, sinto que gostariam que lhes desse uma "receita", que partilhasse com eles um "segredo". Bom, a verdade é que não existem "receitas" ou "segredos". Porquê? Aqui vai a explicação pela voz de Kevin Spacey.


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